Entrevista com Barbara Castro, diretora de criação do estúdio Ambos&&.
Essa semana tivemos a oportunidade de entrevistar Barbara Castro, diretora de criação do estúdio Ambos&&, que se dedica a concepção e execução de instalações interativas, exposições e visualização de dados.
Barbara Castro se formou em design, comunicação visual pela PUC-Rio em 2009 e atuou por dois anos como motion designer na TV Globo. Ao ingressar no mestrado em Artes Visuais na EBA-UFRJ, se torna integrante do Laboratório de Visualidade e Visualização, coordenado pela pesquisadora Doris Kosminsky. Em 2015, se torna co-fundadora do estúdio Ambos&&. Desde então realizou projetos para Museu do Amanhã, Centro Cultural Banco do Brasil, Museu Nacional, SESC entre outros.
Em 2018, Barbara Castro e Luiz Ludwig idealizam a exposição Existência Numérica com curadoria de Doris Kosminsky que apresenta a visualização de dados como linguagem artística para mais de 25 mil visitantes no Oi Futuro.
Em 2019, Casa Firjan convidou o estúdio Ambos&& para conceber a exposição Data Corpus com co-curadoria de Barbara Castro, Karina Araújo e Maria Isabel Oschery, com intuito de apresentar a dimensão humana dos dados.
Como a Ambos&& começou o processo de curadoria para exposições de arte interativa?
Quando fundamos a Ambos&& eu tinha acabado de ingressar no doutorado em Artes Visuais na UFRJ. Ingressar no campo da curadoria foi consequência de duas necessidades. Por um lado, eu e Luiz queríamos levar nossa pesquisa e olhar de criação para exposições e poder desenvolver instalações autorais.
Nos museus e centros culturais, vemos o aumento no interesse pela inclusão de experiências interativas e digitais. No Brasil, temos uma grande comunidade de pesquisadores e artistas do campo de arte computacional e percebi que nos congressos e encontros especializados ainda pouco se falava sobre visualização artística de dados. Por isso Luiz, Doris e eu optamos por propor a exposição Existência Numérica. O maior desafio foi encontrar pessoas no Brasil que estejam realmente dedicadas a visualização de dados como expressão artística.
Os curadores de visualização artística de dados precisam conhecer a fundo o portfolio de artistas e profissionais de perfis distintos. É necessário procurar em diferentes fontes de informação e círculos de atuação, entre os artistas, os designers, os jornalistas, os desenvolvedores, os cientistas da computação. Outra dificuldade é encontrar projetos que abordem a temática desejada com desenvolvimento estético ou interativo propícios ao ambiente de exposição.
Como você tem percebido o trabalho mais autoral na área de visualização de dados?
Ainda vejo uma dicotomia entre abordagens mais artísticas ou mais informativas. Um recurso que o Pedro Miguel utiliza muito bem é a criação de metáforas visuais que tenho visto em algumas abordagens jornalísticas também.
A questão da autoria não está restrita ao campo da linguagem visual, mas também a própria coleta, curiosidade e necessidade de investigação de um tema. Vejo projetos do data_labe, uma iniciativa de jornalismo de dados no complexo da Maré, com uma veia muito autoral também. Eles empregam e questionam os dados e toda a metodologia com muita propriedade.
Como foi o processo da exposição Existência Numérica?
Instalação Disritmia, de Bárbara Castro.
Eu e Luiz estávamos nos dedicando ao setor cultural criando exposições e instalações interativas desde 2014. Queríamos dados no nível individual, como um pulso do coração ou um nome, ao coletivo, como dados de uma nação. Nossa primeira escolha foi convidar o Pedro Miguel Cruz, pois sua obra tem a capacidade singular de representar dados de forma poética. A exposição teve pouco mais de 25 mil visitantes em dois meses.
Como entra a programação nos seus trabalhos?
Enquanto designer e artista, me encontrei programadora durante meu mestrado e doutorado. Entrei fundo na programação criativa e a grande maioria dos trabalhos da Ambos&& foram programados por mim. O código é uma ferramenta de expressão e acho particularmente difícil entregar essa etapa a outra pessoa quando o projeto é de cunho artístico. Quando concebo ideias já estou também concebendo código e quando programo, estou amadurecendo as ideias iniciais.
Dicas para quem está começando:
O livro Existência Numérica é bilingue e inclui uma seleção de textos de pesquisadores como Lev Manovich, Ben Fry, Sara Diamond, Johanna Drucker.
O livro Observe, Collect and Draw da Giorgia Lupi e da Stefanie Posavec é maravilhoso para compreender a visualização de dados em uma perspectiva menos tecnológica e mais pessoal.
Para quem quer começar a programar, muitos apontam o Processing como uma linguagem para iniciar. Porém, para o campo da visualização acredito que o Javascript é uma linguagem boa para iniciar pois tem excelente documentação e muitas bibliotecas. Programar é também saber fragmentar o processo de criação em doses pequenas e constantes.
Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.