Entrevista com Carol Seixas sobre o projeto borDADOS

Rodrigo Medeiros

Um pouco antes de começar a pandemia enviei umas perguntas para Carol para ela contar um pouco da experiência dela na Especialização utilizando visualização de dados e bordado.

Carol Seixas é Designer de Produto/Product Designer na iFood. Paulistana criada no interior de São Paulo, formada em Arquitetura e Urbanismo e pós-graduada em Design Gráfico, iniciou sua trajetória como designer de produto em 2018. Carol toca alguns projetos paralelos de artesanatos, sempre experimentando novos formatos e metodologias, além de ser líder local do IXDA Campinas e host do podcast Papo Sobremesa do iFood.

Rodrigo: Você poderia contar um pouco sua trajetória profissional e acadêmica e como você foi parar na Pós-graduação em Design Gráfico da Unicamp?

Carol: Minha trajetória de vida inclui 5 mudanças de carreiras muito diferentes entre si. Me formei em Arquitetura e Urbanismo pela PUCCamp mas nunca me vi projetando algo além de móveis pra minha própria casa. Quando saí da faculdade, também estava recém-formada em produção artesanal de jóias e queria trabalhar como ourives.

Na Páscoa de 2016, um colega visitou minha casa e me contou que estava trabalhando como UX Designer em uma startup. Quando ele abriu o Sketch e me mostrou o que fazia, eu simplesmente enlouqueci — eu me via fazendo aquilo. Senti que tinha encontrado algo que fazia sentido para mim.

A partir disso, comecei a procurar cursos e eventos de design que pudessem me ajudar a saber mais. A Campus Party foi o primeiro lugar que pude de fato saber mais sobre a área e foi onde conheci o Rodrigo Medeiros. Também tive a chance de conhecer o mundo de visualização de dados através do projeto “Dear Data”, citado em uma das palestras que assisti.

Foi assim que encontrei a pós-graduação em Design Gráfico pela Unicamp em 2018. Em março de 2019 consegui entrar no iFood e estou aqui até hoje como designer de produto.

Rodrigo: Você poderia explicar um pouco o que é o projeto borDADOS?

Carol: Nessa pós-graduação, quando chegou o momento de escolher o tema do trabalho final, decidi primeiramente que iria fazer algo que não exigisse tanto do computador para que eu pudesse explorar algo mais manual. Como sou muito ligada a bordados e tapeçarias, poder fazer algo com isso seria muito desafiador mas também de uma enorme recompensa pessoal.

Foi assim que nasceu a ideia de apresentar observações do cotidiano representadas por visualizações de dados com técnicas e proposições artísticas.

O raciocínio por trás do projeto foi o fato de que me intriga como lidamos com a cultura de dados enquanto sociedade. Sendo assim, fiz um levantamento de informações sobre o meu cotidiano e o de colegas do meu trabalho, considerando três temas: deslocamento para o trabalho, uso de redes sociais e migração para a cidade de Campinas/SP. Minha ideia foi representar esses dados em gráficos para uma visualização do que temos em comum enquanto grupo de pessoas que trabalham na mesma empresa.

Considerando que hoje vivemos a realidade do Big Data, entendo que minhas interações online serão utilizadas a favor do capitalismo moderno e que eu tenho valor a partir do dado que gero. Portanto, procurei fazer uma leve provocação acerca desta situação, propondo que meus dados tenham, também, valor emocional. Para isso, fiz uso de técnicas manuais para reproduzir visualmente, e de forma gradual, informações pessoais e de meus colegas que podem ser rapidamente reproduzidas por computadores de forma mecânica.

Rodrigo: Como foi o passo a passo metodológico do projeto? Por que a escolha do bordado para representar os dados?

Carol: Bordar, em específico, faz parte da minha vida desde pequena pois venho de uma família de bordadeiras. Aprendi pequena a fazer ponto-cruz com minha mãe, uma tremenda artista nessa área, e muitos anos depois me encontrei nesse universo através do bordado livre.

Carol bordando no Parque Taquaral

Para a pesquisa com meus colegas, fiz através do Google Forms. Em seguida, me preocupei em avaliar quais dados iria utilizar e como. Para a base dos projetos, fiz os esboços e as artes no programa Adobe Illustrator. Quando fiquei satisfeita, imprimi no tamanho que gostaria de fazer e passei para o tecido com um lápis comum.

Processo de pintura do algodão cru com mapa do Brasil

Para a aquarela, utilizei tintas de aquarela para tecido diluídas com água. E para os bordados, utilizei linhas próprias de bordados com 2 tipos de pontos diferentes: para os caminhos e redes sociais usei o ponto atrás e para o de migração, utilizei o ponto nó francês.

Os 3 quadros levados à banca

Rodrigo: Percebo no seu trabalho uma influência do data humanism da Giorgia Lupi e do projeto Dear Data.

Carol: Sim, com certeza. O trabalho delas foi a grande base para o que propus.

Acredito que vivemos em uma bolha social, onde dados são trabalhados de maneira bastante elitizada, distanciando o ser humano comum — que não ironicamente — é quem fornece os dados usados.

Quadros de tempo de uso das redes sociais e migração dos colegas

Ao preparar a monografia, li alguns textos de Byung-Chul Han em que ele cita o filósofo alemão Friedrich Nietzsche para criticar a hiperatenção e a hiperatividade. Em “Humano, demasiado humano”, Nietzsche argumenta que a vida humana acaba quando elementos contemplativos são expulsos dela. Como alternativa à vida hiperativa, Han oferece a ideia de uma “vida contemplativa”, na qual os indivíduos sabem dizer “não” ao excesso de estímulos.

Portanto, minha escolha de usar práticas manuais e artesanais para reproduzir esses dados captados acontece de maneira que acompanhe a proposta de uma vida contemplativa, pois bordados e aquarelas são trabalhos que exigem uma atenção especial e bastante introspectiva.

Rodrigo: Você tem algum material que gostaria de compartilhar ou alguma dica para quem está trilhando esse caminho do design e da visualização de dados?

Carol: Se você tem algum interesse em fazer algo com visualização de dados humanizada, minha dica aqui é entender o que você quer passar com o projeto. Entendendo isso, a experimentação vai ser sua maior aliada para chegar de fato a um lugar onde consiga escalar os dados e de fato ter uma visualização concreta deles.


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.