Estética dos dados e representação visual da complexidade

Marck AI

Existe um certo fascínio estético por imagens visualmente complexas. A popularidade das visualizações de dados pode ser explicada não apenas por fenômenos como a big data, mas também por elementos estéticos relacionados a uma noção de unidade e organização visual na forma de imagens intricadas, complexas e esteticamente indulgentes e intrigantes.

Este ensaio, originalmente apresentado no VII SIIMI, discorre sobre o conceito de complexidade e o relaciona a uma estética dos dados a partir de sua representação visual. Utiliza visualizações de dados científicas e artísticas como objeto de análise, buscando identificar características comuns compartilhadas pelos diferentes esquemas de representação visual.

As qualidades estéticas dos dados

Em entrevista de 2010, Jonathan Harris — artista e cientista da computação — discute conceitos estéticos relacionados à beleza da representação visual dos dados. Para ele, as representações visuais dos dados só podem ser consideradas belas se os dados em si forem belos. Além disso, ele considera um erro direcionar o foco da discussão para uma valoração estética em como os dados são representados visualmente.

O diálogo entre Harris e Cameron evidencia a complexa tarefa de se conferir valor estético a algo. Kant considera a experiência da beleza como a capacidade representacional da mente: nosso julgamento estético depende do conjunto de experiências anteriores que dispomos.

Uma estética dos dados

O truísmo “menos é mais”, popularizado pelo arquiteto Ludwig Mies van der Rohe e sinônimo da estética minimalista, parece não mais corresponder aos anseios do atual período marcado pelas revoluções digitais e pela explosão do big data.

Lev Manovich lembra que “junto com a Interface Gráfica do Usuário, os bancos de dados, o espaço navegável, as simulações, a visualização dinâmica dos dados é uma das genuínas novas formas culturais possibilitadas pelo computador.”

O dualismo entre arte e ciência é o aspecto mais interessante. Embora uma área lide primordialmente com aspectos objetivos enquanto a arte se apresenta como um domínio aberto a múltiplas interpretações, nosso fascínio parece emergir precisamente da intersecção de ambas as práticas.

Representação visual da complexidade

Sistemas complexos são definidos pela interação entre um conjunto de partículas ou agentes autônomos cujo resultado global pode ser verificado em propriedades coletivas emergentes, evolutivas e comportamentais. Observamos essa complexidade no comportamento do clima, na dinâmica dos fluidos, no movimento dos cardumes de peixes, no movimento coletivo de aves.

Fractais são padrões recorrentes encontrados na natureza que expressam autossemelhança. Manuel Lima lembra que “tendo se desenvolvido cercado por esse cenário de fractais, talvez não seja surpresa que a humanidade possua uma afinidade com esses fractais.”

Exemplos notáveis

  • The Open Project Internet Map (Barret Lyon, 2003): representação visual das múltiplas conexões que constituem a rede de servidores da Internet. Exibido no MoMA e no Museu de Ciência de Boston.

Figura 2 — Imagem das redes classe C que formam as conexões da Internet em 8 de julho de 2009. Fonte: time.com

  • Distellamap (Ben Fry, 2005): visualização do funcionamento do código em Assembler de jogos clássicos do Atari 2600, onde cada instrução é representada visualmente.

A beleza da complexidade

Os sistemas complexos vivem no limite do caos, na intersecção entre ordem e desordem. Se olharmos para sistemas complexos no micronível dos atores, eles se mostrarão relativamente simples e regulares. Tal simplicidade local, multiplicada pelo grande número de atores e amplificada por uma complicada estrutura de relação, produz uma inesperada, ainda assim organizada, complexidade global.

As visualizações de dados conectam as pontas soltas entre a objetividade pragmática do pensamento científico e a reflexão expressiva e subjetiva do fazer artístico. A estética dos dados presente nas visualizações de dados ocupadas em representar a complexidade é uma expressão contemporânea do sublime e do fascínio artístico.


Esse post foi originalmente postado no Medium do datavizbr e pode ser encontrado no link acima.